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quinta-feira, janeiro 19, 2017

ART - "Sempre quis ser...."

"EU SEMPRE QUIS SER...."


Todos nós já reproduzimos esta frase. Todos. 


Catarina Fernandes e João Porfírio, são dois jovens estudantes em Lisboa que decidiram não ficar indiferentes aqueles que um dia sonharam e que continuam a fazê-lo, mesmo que na rua. Uma ardósia, giz e pessoas que pelas circunstâncias da vida, neste momento, não são o que sempre quiseram ser.  "Sempre quis ser" foi o nome da exposição fotográfica destes dois amigos.



Mas com isto, lembrei-me deste texto ( e as coisas ficam completas):



"... a expressão fica na minha cabeça, ele explica-a, talvez haja outra lágrima quase a sair.
«Viver de esmolas não existe, sabe? Viver de esmolas não existe. Quem anda aqui por esmolas está a morrer de esmolas, e eu trabalhei tanto, tanto, sabe? Não quero o que não mereço, nunca quis o que não merecia. Só quero o que me disseram que ia ter, mas aqui neste país, não sei se já lhe disse, a pobreza não é crime, parece que os políticos que lá estão a legalizaram»,
revela, e mostra um jornal tão gasto como a pele dos braços, a notícia de um qualquer orçamento de Estado aprovado a cobrir a primeira página toda.
«O que eles querem é que a malta tenha medo de ficar como eu. Nada assusta mais do que a pobreza, não sei se já lhe tinha dito. A pobreza não é o fim mas é um final movente, vai-nos acabando por dentro, vai-nos levando aos poucos; começa pelo orgulho, depois leva a autoconfiança, até que, se não estamos atentos, ficamos sem nada, resta-nos pedir e ficar nas mãos de quem nos pôs assim. Mas a mim esta gente não leva. A mim esta gente não leva»,
as palavras abanadas como uma bandeira, branca de paz e nunca de rendição, cada vez mais pessoas à nossa volta, a noite a cair e, ao longe, no céu, a promessa da chuva quase a chegar. 
«O que eles querem é que a gente se refugie da chuva, entende? Querem que a gente tenha medo de se molhar e se refugie da chuva, e que por isso, para isso, faça o que eles querem. O que eles querem é que nós todos sejamos cordeirinhos, e eles dizem vai e nós vamos, e eles mandam fica e nós ficamos. Estamos todos como estamos agora, mesmo agora, a chuva quase a cair e cada um de nós a ter de escolher se se abriga ou se se deixa ficar»,
até que a chuva começa mesmo, as pessoas a correr, os cafés a encher em redor, os toldos das lojas ocupados, eu e Guilherme sozinhos no meio da rua.
«Está ver como todos fogem? É isto que eles fazem»,
outra vez o jornal abanado, as folhas molhadas a caírem aos pedaços.
«Ameaçam que vem chuva, fazem chover mesmo, e as pessoas fogem dela, é mais fácil fazer de conta que se aguenta assim; as pessoas preferem estar recatadas, escondidas do que molha. Mas olhe: a minha avó, Deus a guarde num lugar especial, sempre me disse que quem anda à chuva molha-se, e eu prefiro estar todo encharcado do que só levemente molhado, sabe? Se é para molhar que sirva para lavar, dizia-me ela»,
a rua deserta, eu e ele ensopados, e por momentos até as rugas parecem desaparecer por debaixo da água.
«Todas as águas servem para sarar. Já não vai ser no meu tempo mas tenho a certeza de que um dia as pessoas vão perceber que todas as águas servem para sarar, e aí a revolução chega. Aí a revolução chega. Vou morrer, fique o senhor a saber, com a esperança da revolução, e até não é uma maneira feia de se morrer, pois não?»,
sorri, a vida perdida nos dentes perdidos, passa-me a mão pelo ombro, dá-me uma palmada amigável nas costas, e segue o seu caminho, a chuva e a silhueta dele, a noite a fechar-se, e uma recusa final quando lhe pergunto se quer que o acompanhe ou que o leve a algum lado:
«Deixe estar. Eu fico aqui onde chove.»
E fica. E fica. "


Texto retirado do livro "Prometo Falhar", Pedro Chagas Freitas


















With Love, Ana Rosina

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