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sábado, maio 14, 2016

Inspiration - " Acostumamo-nos?... Sim, mas não devíamos. "

"Eu sei que nós nos acostumamos. Mas não devíamos...

Acostumamo-nos a morar em apartamentos de fundos, e a não ter outra vista que não as janelas em redor.
E porque não temos vista, logo nos acostumamos a não olhar lá para fora.
E porque não olhamos lá para fora, logo nos acostumamos a não abrir de todo as cortinas.
E porque não abrimos as cortinas logo nos acostumamos a acender cedo a luz. E à medida que nos acostumamos, esquecemos o sol, esquecemos o ar, esquecemos a amplidão....
Acostumamo-nos a acordar de manhã sobressaltados porque está na hora.
A tomar o café a correr porque estamos atrasados.
A ler o jornal no autocarro porque não podemos perder o tempo da viagem.
A comer uma sanduíche porque não dá para almoçar.
A sair do trabalho porque já é noite.
A dormitar no autocarro porque estamos cansados. A deitar cedo e
dormir pesado sem termos vivido o dia..... 
Acostumamo-nos a esperar o dia inteiro e ouvir ao telefone: "hoje não posso ir".
A sorrir para as pessoas sem recebermos um sorriso de volta. 

A sermos ignorados quando precisávamos tanto ser vistos.
Acostumamo-nos a pagar por tudo o que desejamos e o que necessitamos.
E a lutar, para ganhar o dinheiro com que pagar esses desejos e essas necessidades.
E a pagar mais do que as coisas valem. 
E a saber que cada vez pagaremos mais. 
E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar.... 

Acostumamo-nos à poluição... 
Às salas fechadas, de ar condicionado e cheiro a cigarro. À luz artificial. 
Ao choque que os olhos sofrem com luz natural. 
Às bactérias na água potável. 
Acostumamo-nos a coisas demais, para não sofrermos.... 

Em doses pequenas, tentando não perceber, vamos afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá.... 
Se a praia está contaminada, molhamos só os pés e suamos no resto do corpo. 
Se o cinema está cheio, sentamo-nos na primeira fila e torcemos um pouco o pescoço. 
Se o trabalho está difícil, consolamo-nos a pensar no fim-de-semana. 
E se no fim-de-semana não há muito o que fazer, deitamo-nos cedo e ainda ficamos satisfeitos porque temos sempre o sono atrasado. 
Acostumamo-nos para não nos ralarmos com a aspereza, para preservar a pele. 

Acostumamo-nos para evitar feridas. 
Acostumamo-nos para poupar a vida. 
Vida que aos poucos se gasta, e que gasta de tanto se acostumar, e se perde de si mesma."


Clarice Lispector


Acostumamo-nos... Mas não devíamos.



With Love, Ana Rosina

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