Translate

22 de setembro de 2012

Inspiration - " Uma história de fadas "

"Era uma vez o País das Fadas. Ninguém sabia direito onde ficava, e muitos (a maioria) até duvidava que ficasse nalgum lugar. Mesmo quem não duvidava (e eram poucos) também não tinha a menor ideia de como fazer para chegar lá. Mas, entre esses poucos, corria a certeza que, se quisesse mesmo chegar lá, dava um jeito e acabava por chegar. Só uma coisa era fundamental (e dificílima): acreditar!...

Era uma vez, também, nesse tempo (que nem tempo antigo, era, não; era tempo de agora, que nem o nosso), um homem que acreditava. Um homem comum, que lia jornais, via TV (e sentia medo,  como nós), era despedido, ficava duro (como nós), tentava amar e não dava certo (como nós). Em tudo, o homem era assim,como nós. Com aquela diferença enorme: era um homem que acreditava. Nada no bolso ou nas mãos, um dia ele resolveu sair à procura do País das Fadas. 
E saiu.
Aconteceram milhares de coisas que não tem espaço aqui para contar. Coisas duras, tristes, perigosas, assustadoras, O homem seguia sempre em frente. Meio inibido, porque lhe tinham dito que mesmo chegando ao País das Fadas elas podiam simplesmente não gostar dele. E continuar invisíveis (o que era o de menos), ou até fazer maldades horríveis com o pobre. Assustado, inseguro, sozinho, cada vez mais faminto e triste, o homem que acreditava e continuava a caminhar. Chorava às vezes, rezava sempre. Pensava em fadas o tempo todo. E sem ninguém saber, em segredo, cada vez mais: acreditava, acreditava!
Um dia, chegou à beira de um rio lamacento e furioso, de nenhuma beleza. Alguma coisa dentro dele disse que do outro lado daquele rio ficava o País das Fadas. Ele acreditou. Procurou inutilmente um barco, não havia: o único jeito era atravessar o rio a nado. Ele não era nenhum atleta (ao contrário), mas atravessou. Chegou à outra margem exausto, mas viu uma estrada pequenina e sentiu que era por ali. Também acreditou. E foi caminhando pela estrada pequenina, em direcção aquilo em que acreditava.
Então parou. Tão cansado estava, sentou numa pedra. E era tão bonito lá que pensou em descansar um pouco, coitado. Sem querer, dormiu. Quando abriu os olhos — quem estava pousada na pedra ao lado dele? Uma fada, é claro. Uma fadinha mínima assim do tamanho de um dedo mindinho, com asinhas transparentes e tudo a que as fadinhas têm direito. Muito envergonhado, ele quis explicar que não tinha trazido quase nada e foi tirando dos bolsos tudo que lhe restava: farelos de pão, restos de papel, moedinhas. Morto de vergonha, colocou aquela miséria ao lado da fadinha.
De repente, uma porção de outras fadinhas e fadinhos (eles também existem) apareceram de todos os lados sobre os pobres presentes do homem que acreditava. Espantado, ele percebeu que todos estavam a gostar muito: riam sem parar, jogavam farelos uns nos outros, rolavam as moedinhas, na maior zona. Ao toquezinho deles, tudo virava ouro. Depois de brincarem um tempão, disseram-lhe que tinham adorado os presentes. E, em troca, iam ensinar um caminho de volta bem fácil. Que podia voltar quando quisesse por aquele caminho de volta (que era também de ida) fácil, seguro, rápido. Além do mais, podia trazer consigo outra pessoa: teriam muito prazer em receber alguém de que o homem que acreditava gostasse.
Era comum, como nós. A única diferença é que ele era um Homem Que Acreditava.
De repente, o homem estava num barco que deslizava sob colunas enormes, esculpidas em pedras. Lindas colunas cheias de formas sobre o rio manso como um tapete mágico onde ia o barquinho no qual ele estava. Algumas fadinhas esvoaçavam em volta, a brincar. Era tudo tão bom que ele dormiu. E acordou no mesmo lugar (o seu quarto) de onde tinha saído um dia. Era de manhã bem cedo. O homem que acreditava abriu todas as janelas para o dia azul brilhante. Respirou fundo, sorriu. Ficou a pensar em quem poderia convidar para ir com ele ao País das Fadas. Alguém de que gostasse muito e também acreditasse. Sorriu mais ainda quando, sem esforço, se lembrou de uma porção de gente. Esse convite agora está sempre nos olhos dele: quem acredita sabe encontrar. Não garanto que foi feliz para sempre, mas o seu sorriso era lindo quando pensou — ah, disso eu não tenho a menor dúvida! E tu?"

O Estado de S. Paulo, 30/11/1988



With Love, ***

Sem comentários :

Enviar um comentário

Pin It button on image hover